Açucar

De novo, Efesto resmungou:

— Diat, não!

A guerreira (gata) Diana olhou o gigante (humano) Efesto e gemeu seu protesto, a cauda murchando de frustração.

— <<Diana! Meu nome é Diana! >>

Ok, o gigante já tinha provado que nada o faria entender a língua felina, tanto que a guerreira nem carregou as palavras com magia dessa vez. Muito mais frustrante era: como assim ela não podia ficar no lugar em que as fagulhas mais interessantes do brilho mágico dele se concentravam?! No primeiro dia até tinha sido divertido ficar sozinha na toca dele. Os objetos dos gigantes, seus cheiros, suas texturas, cores e até brilhos mágicos: tudo era novo e interessante de se explorar. Sim, havia muito pra ver, mas Diana também era ávida. Aquelas novidades não a entreteram nem três dias.

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O Império da vertigem

A ordem dos vertiginistas recomendava o desapego às coisas terrenas. Era o centro do império vaguense, mas abominava o partidarismo, o poder e a própria fama. O fato de uma irmandade de reclusos abstêmios ser a bandeira de um país dizia muito sobre ele. Os cidadãos vaguenses gabavam-se de terem domínio sobre “as plantas que secam, a areia que se acomoda nos veios do granito, o entardecer sobre o campo de tartarugas e o gelo derretido.” A isto chamavam império.

Para a passagem dos dias, abasteciam-se de jogos. Cartas, dados, runas e a cópula distraíam a duração dos anos. No restante do tempo praticavam a criação de cabras e cavalos, plantavam beterrabas e fabricavam rendados. “O duelo com facão nas festas podia entreter tanto quanto a declamação de versos que pregassem a paz”, disse Fernão Mendes Pinto sobre este povo. Sobre os monges vertiginistas, Fernão disse muito mais. Tanto que seu relato me fez ter interesse pela ordem.

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Cheiro de Flor

Vó Ana ajeitou com carinho milimétrico os pedaços de bolo cremoso de fubá no pote que acompanharia a marmita do neto. Depois de ouvir as instruções do dia, ela recebeu dele um beijo na testa e deu-lhe a bênção que sempre pedia antes de ir para o trabalho.

Quando fechou o portão, ela assustou-se com o forte cheiro de crisântemo que se aproximou. Tranquilizou-se quando viu o vizinho às voltas com vários vasos da flor. Derrubara alguns. A queda deve ter machucado a flor e feito seu cheiro propagar-se mais rápido.

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O Sabor da Cidade

Sísifo foi condenado pelos deuses
a empurrar uma imensa rocha
até o topo d’uma montanha por toda a eternidade.
Aqui, o deus-dinheiro me condena todos os dias,
maldita rotina!
Vejo minhas marcas no asfalto,
o desânimo, o cansaço,
a falta de ar e espaço,
sofro ao carregar esse inferno cinzento nas costa!

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Um dia

E eis que entro no quarto e o minotauro está sentado na cama.

De cabeça baixa, seus chifres riscam a parede. Olhos redondos semicerrados, ele parece que cochila. Não parece perceber minha presença. Refaço rapidamente o meu caminho até chegar à porta depois de conter um berro, mão tapando a boca e olhos, os meus, arregalados.

Saí de casa às 9h e, entre uma viagem curta de ônibus e a busca por um café no qual pudesse trabalhar, respirei o ar poluído da cidade, fumei dois ou três cigarros num espaço curto de tempo e senti aquela tontura que só os fumantes conhecem. Um adormecimento.

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Calalini

Um ou dois lados aqui, uma ilha de coisas, algumas de verdade,
Pode ser em qualquer lugar, mas então, as crianças pegam o trem da manhã até lá.
Fico em Calalini esta noite. A lua tem uma cor diferente às 15 da manhã
Para coexistir com os gatos em mim. Alguns bons e outros
Definitivamente maus
E coloridos.

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