Rampa

Rolou para a beirada da cama, engasgou, grunhiu e cuspiu uma bola densa e babada de pelo, do tamanho de uma bola de tênis. A humilhação de sentir-se um felino doméstico naquele vômito capilar o fez encolher-se com o lençol encardido que mais parecia uma palha de aço que ariava panela. Seu corpo grandalhão de lobisomem polar suava de pingar naquelas condições venusianas.

O hospital público de animorfos ficava no topo de uma encosta lambida de lixo e casebres atulhados de fiação cruzada. Subir a rua estreita de paralelepípedos soltos na ambulância foi a maior aventura de sua vida. A infecção que consumia suas patas nasceu sabe-se lá onde e o mastigava feroz. Já perdera um dedo. Perigava perder uma pata inteira.

Nas primeiras semanas dormiu no corredor. Pelo menos ali passava algum vento. Dentro do quarto coletivo, a maca grudada num vértice o sufocava. Não havia ventiladores porque nenhuma tomada funcionava. O animorfo que antes possuía uma constituição imperial com sua pelagem branca e macia, os músculos sobressalentes e o focinho brilhante, agora se reduzia a um vira-lata de estômago negativo, orelhas caídas e tremores que o faziam arrancar inconscientemente o soro toda noite.

No tormento daquele antro de tantas macas e cheiros e gemidos e lamentações delirantes, o lobisomem polar levantou-se com a ajuda de uma bengala de madeira e arrastou-se até a sala da recepção, que brilhava vazia sob uma fraca luz azulada. Ali perto da entrada, uma rampa nascia na sala e desembocava na porta de saída. E ali naquela rampa ele resolveu se acomodar. Abaixou-se e deitou-se no plano inclinado, esfolando-se de leve no piso duro e sentindo um friozinho temporário que o fez respirar melhor por alguns segundos.

Podia sentir a pele descolando lentamente do músculo. Mais alguns dias naquele pardieiro infecto e morreria embrulhado num casaco do próprio pelo. Desbotado, grisalho e fedendo a mijo.

Mas pelo menos tinha a rampa. No chão frio de concreto áspero, esfregava-se como um cachorro magrelo buscando os resquícios de um geladinho que já se esvaía. E caía na embriaguez do cansaço, que não era bem sono, mas uma desistência de manter os olhos abertos.

Numa dessas noites, foi sacudido por uma algazarra que vinha escorrendo pelos corredores. Aparentemente outro lobisomem, esse um cinza comum de pequeno porte, tentava fugir esgueirando-se por uma pequena janela perto do banheiro. Mas o espaço aberto não comportava o corpo do animorfo, que entalou e ali ficou gemendo e uivando, com o torso e as patas dianteiras para fora e a bunda e as patas traseiras para dentro. Alguém tentou puxá-lo de volta e quase rasgou o coitado no vidro quebrado da janela. Demorou quase meia hora para que as enfermeiras e os seguranças chegassem à cena e o resgatassem dali numa operação cheia de “pega aqui”, “puxa ali”, “afasta um pouquinho”, “olha o canto”, “olha o vidro”, “encolhe a barriga”, “abaixa a cabeça” e “vamos dar um jeito em você”.

No dia seguinte ele estava amarrado na maca com tiras de couro, olhando embasbacado para o teto com a boca aberta como se enxergasse os peitos nus do universo acima de si. Uma rodela de cuspe acumulava-se no travesseiro mole. E um rastro de pelos fazia redemoinhos no piso.

O lobisomem polar ouvia as lamentações do colega dopado mesmo lá da rampa. Odiava aquilo com todas as fibras. Encolhia-se, tapava as orelhas, amaldiçoava sua sensibilidade auditiva e tentava dormir. Tanto insistiu que a rampa resolveu acolher suas angústias, e o abraçar para junto de si. Ali ele ficou pelo resto da noite, e pelo dia que nasceu, e pela noite que veio, e assim por todos os ciclos seguintes. Amalgamado com a rampa, apagado por ela. Indigente e invisível de carne, pelos e cimento.

Texto: Alliah

Arte: Rogério Geo

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